INVÓLUCRO©

* Texto publicado no livro 'I COLETANEA-SCRIPTUS' (Editora Novitas) - Adquira o seu (Clique AQUI!).


Untitled#8 - Sigur Rós


Para existir, eu preciso primeiro não existir, não estar. Sub-habitar um fechar de olhos indeterminado e indeterminante.
Para existir, eu preciso primeiro possuir a distância nas mãos. Dominar as pausas dos meus dias.

Para existir eu preciso estar longe de tudo o que me toca, espinhoso e invasivo e me fere por dentro. Preciso criar, lambida por lambida, a casca de proteção para o que me é externo, até que a pele engrosse e torne-se fortaleza. E eu preciso que tu não estejas por perto. Porque já não sei mais diferenciar o meu fim do teu começo e a tua vida não pode em hipótese alguma, devorar a minha.
Eu me desfaço da tua simbiose. Eu me liberto da tua corrente pesada. Eu arrebento os teus grilhões.
Eu preciso existir inteira novamente. Una. Preciso do meu invólucro macio e impenetrável. Aninhar-me no casulo das palavras e inventar um novo corpo, um novo coração, um novo lábio, novos olhos, novas dermes, novos poros, nova solidão.
Para existir eu preciso primeiro morrer para a dor que eu era, escurecer as perdas e as decepções, trancafiar os demônios mais antigos nos baús incomunicáveis do passado. Esvaziar as gavetas das imperfeições e dos erros cometidos.
Para existir inteira novamente eu preciso ir embora de ti um pouco. Praticar a solitude em doses diárias. Pra manter minha sanidade em dia com a minha loucura. Pra manter a minha fantasia sempre mais forte que a minha realidade. Abandonar-te por instantes quase-mínimos e quase-eternos e buscar a cura pra mim, pra ti.
Desfuncionar a mímica das tuas mãos.

Para existir, eu preciso gerar e parir meus dialetos de maneira mais certa, mais simples, mais audível.
Para existir eu preciso desligar em mim o que me mantém em estado de alerta. Relaxar. Deixar-me entregue às levezas das coisas que não vemos senão dentro de nós.
Para existir eu preciso primeiro fazer um pouco de mágica.
Explodir a fúria da criação. Sozinha.
Deitar-me com a minha solitude, nua, vulnerável, até que eu seja tão intensa e transbordante quanto a minha vontade de ser outra.
Para existir, eu preciso primeiro não existir. Não ser. Só saber-me no além-mim.
Abstrair-me de tudo. De ti. De mim mesma. Desaprender quem eu sou. Emudecer minha voz, minhas tempestades, meus raios, meus estrondos. Escorrer minha lava sem medo. Destilar minha essência em gotas vagarosas de êxtases e abismos.
Pingar minha solidão fecunda no chão da vida absurda que me penetra, ereta e viril.
Para existir, eu preciso primeiro desaparecer.... Nascer pra dentro.
Implodir minha inevitável crisálida.

Para existir.


Van Luchiari ©
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* Foto: José Luis Álvarez

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Sabes ainda meu nome? Fome. De mim na tua vida. (Hilda Hilst)


Teardrops - Massive Attack

Primeiro houve a festa de encontrar-te, de olhar-te tão meu, tão perto, tão todo aqui. E a janela aberta denunciava a tempestade e atraía a tímida libélula com suas asas doces, encantada pela luz convidativa e impossível. A luz... Era de ti que vinha? + Depois a fúria de te amar e as tuas mãos e unhas e o chão onde me deitei, coberto de véus, notas e umidade. Coberto de ti. + Alma derramada. Partículas de gotas tuas. Estrelas cadentes da tua língua sulcando caminhos em mim. Minha carne estremecida e a tua imagem feito fogo queimando minha vida. + Meus olhos abriram-se e tudo foi meu. + Mensagens em garrafas e grãos e a noite, devorando os instantes, debatendo-se no meu corpo nu. Nu e apaixonado. + Veio o imaginário calar o eco. Veio o feitiço desfeito. Uma luz apagada gritou o desencanto. + O ar impregnou-se daquele cheiro ácido e difícil... Um rastro de solidão que fica depois do cio despejado. + Banquete imaginário. + Tanto que amei. Tanto me dei. Provei de um tudo. + A descoberta do que tu eras veio de encontro ao meu esperar mais antigo. + Teu amor me lambe, me teima. Teu amor me queima. Lentamente. Diário e constante. + Meus olhos se fecham. E no fim o que me completa é essa tua ausência tão cheia de nadas. Completude vazia depositada em minha boca. Gozo escorrido em desperdício de coxas. + No teu não-estar vive essa falta tão cheia de ti que mesmo sem te ver eu já sou inteira tua. + E tu que só chegastes agora já me fez desatino e pecado. + Cometo-os e te esqueço. E até o não te ter é em mim um prazer e uma festa!

Van Luchiari ©
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NANQUIM ©


Eu escrevo assim pequeno.
E é assim porque poemas pequenos não machucam. Vez ou outra fazem alguma cócega, apenas. Mas não chegam a sangrar. Não ferem profundamente porque acabam antes da dor.
Mas eu confesso. No fundo eu minto.
Porque escrever sangra. Seja lá de que tamanho for a escrita. E sangra porque para escrever é preciso se abrir de um jeito inexplicável. E eu me abro. Exponho vísceras, coração, veias.
Dilacero-me.
E ao me cortar jorram palavras e tintas e placentas junto com o sangue denso e rubro. Tudo misturado e caótico. E às vezes é uma nojeira, mas às vezes é a coisa mais linda! Um quase-milagre. Ou um orgasmo. É um nascer-me.
É desse jeito que eu escrevo.
Eu escrevo no avesso do dia. Quando a luz não grita e a vida faz aquele silêncio palpável, mastigável.
É também quando no mundo ventila aquele gosto de imortalidade. E até meu coração, meu trêmulo coração, escorre em minhas mãos.
Encontro inspiração quando em tudo faz aquele silêncio gostoso da madrugada. E eu faço de conta que tudo é meu e nada existe além dos muros da minha pele. Aí me entrego e me abro inteira. Devolvo-me à voracidade intensa que me lateja o tempo todo.
Quando entre o negrume do céu e a umidade da pele percebe-se aquela explosão mascarada de quietude... No avesso do som, na beirada do improvável, mergulhada no impossível... É aí que eu encontro minha poesia.
E a gozo - languidamente - na língua da noite.

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ONDE?©


Coming Back to Life - Pink Floyd


Onde tu estavas
quando eu estava me quebrando, quando eu estava sangrando, ferida nas farpas do amor que você deixou pelo caminho e espalhadas pelas paredes, pela minha pele, pelo ar ao meu redor?
Onde tu estavas quando eu me parti em mil pedaços? Quando sobre tudo pairou o silêncio, quando o chão escapou-me, quando o tempo definhou nas minhas mãos, enterrando o futuro nas entranhas das tuas ausências? Onde?
Onde tu estavas quando eu mais precisei de ti? Quando eu mais desejei teus olhos, tua voz, teus dedos macios, tua mão estendida?
Onde estavas tu quando eu enfrentei o furacão? Quando eu despenquei no abismo, quando me vi no fundo do poço? Quando eu quis abrir meus olhos para te ver e era tudo escuridão... onde estavas?
Onde foi que o teu amor se escondeu enquanto o meu gritava por ele na cama vazia, no chão gelado onde eu me abri à tua espera, nua e dilatada? Onde?
Apenas dentro de mim, no espaço invisível que vive e se equilibra entre o real e o sonho.
Ali, tu estavas.
E estavas surdo porque não ouviu meu grito, meu chamado. E cego, porque não viu meu amor que ardia lentamente por ti.
Ali tu estavas. Tão preocupado consigo que não me viu te amando. Não sentiu meu amor que jorrava dos meus olhos e inundava tuas pausas.
Não encontrei-te.
E então, deixei-me escurecer para esquecer-te.
Não te procuro mais.

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