TRÉGUA

*Estamos em crise. Numa crise tão profunda quanto um poço cravado no meio do deserto, em busca de água, um fiapo qualquer de água que ilumine um canto qualquer de esperança.
 Estamos em crise e cada olhar lembra uma tempestade. Cada gesto, uma tormenta, uma doença. Um mar em intenso redemoinho a sugar os redores dessa vida tão seca. Descobri hoje que também pode ser seco bem no meio do temporal. Na verdade não tem coisa mais seca do que um temporal quando um amor acaba e ninguém ainda percebeu. Quando algo chega ao fim, tão sutilmente que não notamos. A pele não sangra, os olhos nem marejam. Seco. Tudo é seco. Longe. Tudo é longe. Do fundo daquele poço, sairão apenas esses ares sufocantes sem nenhum calibre de futuro, nenhum gole de redenção.
 Estamos em crise. Secos. E quanto mais nos debatemos, mais nos distanciamos, mais nos despedaçamos. Nada encontra o caminho. O pó dos dias cegou a intuição, sugou o perdão, drenou cada réstia de sol que havia entre os nossos dedos. Somos cinzas. E nem nos demos conta de quantas fúrias de ventos nos extinguiram. O poço é a nossa casa, o nosso espelho, a nossa sombra, a nossa cama. É onde nos matamos diariamente, com minúsculas friezas e incompatibilidades e escuridões e infernos. A coisa mais triste do mundo é quando um amor morre. De descuido ou asfixia. O mundo nunca foi mesmo um lugar justo.
Estamos em crise. Estamos no poço. Quem é que vai jogar a corda? Quem é que a tem? Ou criamos asas e garras para escalarmos sozinhos essa distância e damos uma trégua para o amor.
 Ou então adeus.

#vanluchiari



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RESPOSTA AO AMIGO DISTANTE - DAS SAUDADES PATERNAS



 Seu filho da mãe...! 

 Chorei feito uma carpideira com teu texto, com teu Quincas, tão de repente presente, pelas tuas palavras. Chorei com a nossa perda tão parecida de pais tão iguais que tivemos. Você sabe como eles eram parecidos os nossos pais. Até amigos eram, os danados. Cresceram juntos, em caráter e estatura. Chorei. Chorei porque é linda a saudade. E você tem razão. É mesmo a piada definitiva, a saudade. E como nós sempre estamos conectados de um jeito ou de outro, só pra constar, hoje mesmo escrevi uma frase assim: "A vida vai esvaziando a gente das gentes que nos preenchiam." 

  A morte é a maior piada de Deus. Pra quem vai, não. Pra quem fica. Buraco impreenchível. Jamais haverá Sol ou Gente ou Palavra ou Carinho ou Piada que preencha o espaço da falta que fazem os nossos Eus mais antigos - nossos pais. Ficamos nós, néscios, decifrando os silêncios, as alças de caixão vazias das nossas mãos, os caminhos não percorridos até os encontros, os difíceis encontros com os fins, o riso que não virá mais e o riso que vem sem avisar, distraído, nos fios invisíveis da memória. 

 Quincas riria. Nossos pais também. Porque eu tenho absoluta certeza de que a única coisa que nos torna mais leves é a morte. Morrer é libertar-se dos pesos dos nossos próprios caixões, das nossas mortes diárias. Portanto, eles estão lá, nossos pais, flutuando, leves... rindo e pregando peças no tempo, no destino. Quem sabe um dia eles voltem a nós assim, discretos, brincalhões, disfarçados de ironia em algum canto da nossa vida. Acho que já estão aqui, nos sorrisos que damos sem perceber. Presenças etéreas. 

 Eu não contei antes, mas meu pai veio me ver uma noite dessas. Estava nitidamente confuso, buscando talvez a mim, aqueles olhos verdes enormes e brilhantes me procuravam e eu, chorando, alcancei-lhe o rosto e acariciei-lhe a pele, a textura áspera da barba... foi como viver de novo. Ele me disse algumas coisas, balbuciou alguns carinhos, acho. Não me lembro bem. Você sabe como são os encontros dentro dos sonhos... Mas não importam palavras porque eu senti cada letra, gesto, olhar. Ele tinha um sorriso. Tímido sorriso. Eu o abracei com a intenção de ser corda ou corrente ou eternidade, mas no fundo eu sabia: não se prende uma vontade. Eu ia acordar em breve, embora meu coração ainda quisesse ficar preso àquele sonho por sabe lá quanto tempo. (O tempo onírico também é implacável). Sei que eu chorei. Acordei chorando, como na velha canção dos Paralamas. Assim como chorei ao te ler, hoje. Veja só! Até nas memórias e até na saudade, somos iguais. Tão parecidos quanto foram os nossos pais. 

 Nós seguramos, sim, as alças dos nossos pais. Pela vida. As alças de dentro, que nos ligam a eles pelo lado atemporal do tempo. E continuamos segurando-as, em cada lembrança, em cada anedota ou fotografia ou lágrima ou cansaço. Eles sempre estarão em nós, porque não dá pra fugir da falta que eles fazem. A saudade não é só uma anedota. Não é só uma alça. A saudade é um grilhão. E estaremos presos a ela, para sempre. Até que nós mesmos nos tornemos a própria saudade. 

 Por falar nisso. Ela acaba de doer aqui. 

 Amor, 
 V. 



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 (Arte: Kymia Nawabi)

DE MIM

*Desse muito de mim que ficou para trás eu aprendi o vazio, a falta, a saudade.
Aprendi os ruídos que fazem os espaços ocos, as memórias,
os desejos empoeirados, esquecidos nas gavetas profundas da pele.
Desse muito de mim que já não sou, extraí a melancolia,
a umidade vazia dos dedos, a latência dos lábios,
a sépia do sentir, o silêncio dos arrepios.
Esqueci-me um quanto.
Tantas e tantas vezes nem fui-me antes de findar.
E findei-me, pendente, cadente, longe, bem longe de qualquer antes.
A milhas e milhas e milhas e milhas do agora.

 #vanluchiari



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Diga NÃO ao plágio. Cite SEMPRE a autoria. 

MORTAL

Pode ser que não sobre ninguém em mim. 
Que essa coisa que se mexe, dia após dia, monotonia após monotonia, seja finda. Algo que acaba porque é tanto em tão pouco tempo. Intensidade mortal. Porque tudo que é exagerado deixa um vazio, um buraco, um vácuo que talvez nada preencha. Pode ser.
Pode ser que tu não me vejas, que nunca saiba das coisas que eu sonho ou do que serei quando estiver à beira do mundo. Que nunca conheças meus passos e o quanto eles são indecisos... nunca sabem dos caminhos corretos. Sempre cambaleantes. Incompletos.
Coisa mais mundana querer saber tudo. Nada sou, nada sei. É melhor aprender logo minha mortalidade, minha pele limítrofe, meu existir escasso e garatuja.
Pode ser que tu jamais saibas da minha fragilidade, posto que meti na cara essa tez de invencível. Entenda. No fundo eu sempre quis esconder os silêncios, o fel, a incompetência, os medos. Sim. Talvez tu não conheças meus medos ou as vontades imponderáveis que pratico quando a madrugada devora grotescamente o dia. Coisas que um dia deixarei de mim. Coisas que ninguém vê. Se reparar bem, é tudo a mesma coisa. Ninguém nos vê até que não mais existimos nessa vida. 
Deixo-me para o meu depois, então. Se ainda algum órgão vital sobrar, pulsando descompassadamente, nesse desastre caótico que chamo de corpo... Se depois de tudo ainda me houver em mim, deixo-me. 
Porque por hora, nessa vida, no agora, sou só uns rabiscos desentendidos, cuspidos em papel, madeira, vento ou onda. Ao menos um caminho até o que chamo de mim.
Mal me conheço. Mal sou. Existo? Pode ser.
Ou pode ser que eu apenas exista plenamente logo depois do fim, pra depois da solidão, bem pra lá de mim.
Pode ser.

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Inspire!



Untitled#Its - Sigur Rós
Eu me perdi.

Em algum lugar dentro do espaço descomunal que existe de uma ponta a outra da minha alma. Perdi o rumo. Desmemoriei os caminhos.
É tão longa a estrada. Tão cheia de truques, ilusões, irrealidades, espelhos distorcidos. Debato-me nesse imenso vazio que me sobra e inunda quando eu fecho os olhos.
Não há janelas dentro de mim que tragam pra dentro a luz que eu sei que existe lá fora.
Eu sei. Está fora do meu alcance por ora. Meu caminho é inverso. Disperso entre o que eu fui e o que eu me tornei. Consumi-me lentamente num inevitável e pesado desaparecer.
Eu me perdi.
Estico os desejos e os pensamentos como escapatórias mágicas. Nenhum lugar é seguro dentro de mim. Eu não posso simplesmente sair. No entanto pulso insistentemente o que há de vida lá fora. Aprisionada nesse corpo que não encontra saídas, que não escorre pelos vidros quebrados dos quadros nas paredes. Que transforma os próprios dedos em inutilidades imprestáveis. Quebra os espaços restantes entre os mistérios e as respostas.
Eu me perdi.
Nada mais conheço do que um dia eu soube ser eu. Nada mais sei. Desaprendi-me. Vejo uma máscara de feições confusas tentando formar um rosto. Um pé, um fogo, um estalo, um sorriso, um engano, uma pegada, uma foto, uma sensação, uma canção... Tudo passa pelas minhas veias. Menos o fio que me libertará dessa catatonia. Eu vago por este lugar que eu chamo de mim.
E as correntes que eu mesma criei gemem o grito que se forma: Let me out! Let me out!
Eu ali. Uma pausa nas coisas. Expectadora de mim. Perdida. Refém das minhas próprias armadilhas, das minhas próprias teias. Dos meus medos. Alma paralítica, desfalecida e nua. Suplicando suas metamorfoses, seus voos.
Eu me perdi.
E o silêncio delatando meu pedido de socorro. Vagando no mar alto da minha alma em fúria, eis a garrafa. Eis o bilhete: Let me out! Let me out!
Tão vasta é a imensidão que vai de uma ponta a outra da minha alma que talvez eu nunca mais me encontre.

Ou talvez alguém encontre a mim com um amor assim inverso: Let me in! Let me in!


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