FIM ©

*Não. Não é tristeza. Você nunca entende. É um Fim, que um dia, de repente, vira Sim.


Disarm - Smashing Pumpkins


Sabe por que eu grito esse silêncio?
É porque nada mais importa.
Vou fechar a porta que me une ao que eu chamo de mim. Des-existir das palavras, porque nada mais adianta e o fim é logo ali. Parece uma gruta, sepulcro de pedras... mas é passagem.
Talvez fosse mais sensato se eu saísse por aí como antigamente, mãos dadas com algum poema ou criação ou música ou rima ou sorriso... mas sei lá onde foi que eles foram parar. Foram ficando pelo caminho, acho. E eu deixei os rastros todos pras entrelinhas.
Você sabe.
Lembra quando era tudo tão simples que cabia inteiro nas nossas mãos? Lembra quando havia motivos para continuar com essa coisa de ser? Motivos para inventar amores como uma forma de identificar nossa solidão? E a vida passando era a coisa mais linda e tudo virava eternidades?
Eu me lembro.
Mas nada mais importa.
Vou seguindo assim em moto-contínuo porque não encontro mais dentro de mim os caminhos. Desintegro minha vontade, esfarelo quereres e por fim, termino.
Deixo os restos do que eu não fui para algum outro nascer.
Porque agora nada sou e nada há.
Serei, daqui pra frente, mera espectadora de mim.

Mas isso é apenas um fim.


Van Luchiari ©
*Texto registrado na Biblioteca Nacional.
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FAÇA-ME O FAVOR! ©

Para alguém que me fez tempestade. Antes e ainda....

Ora! Faça-me o favor de não andar mais com os pés no chão
Aprenda a enfrentar com coragem a tua própria inundação
Faça a tua casa bem perto da arrebentação
Não tente nunca escapar da minha invasão
Porque o meu amor tem a força de um furacão
E por ti enfrenta a submissão
Torna-se cio, criação... vira inspiração
E se bobear, tu não aguentas não!

Faça-me o favor de diminuir o medo e a aflição
De aumentar a temperatura até atingir teu ponto de ebulição
Faça o favor de desfazer os nós e a tensão
De beber inteira a minha vida e a minha poção
Porque meu amor é suave intoxicação
E querer-te é calma e devassidão
E eu te dedico todo o meu tremor e a minha sedução
E por ti, abandono a minha solidão!

Ora! Faça-me o favor de colocar-se todo na minha mão
Tenha a coragem de rasgar teu coração
De me tirar da exposição. De me salvar da corrosão
De me dar tua erosão e por mim perder o chão
Deixe-se abrir e ensina-me o que é paixão
Que meu amor por ti queima feito carvão
Não te esqueças de ser toda a minha ambição
De perceber minha intenção. De me dar sustentação.

Ora! Faça-me o favor de aprender minha canção
Faça-me o favor de jamais me negar teu tesão
De sempre me olhar com os olhos do coração
E de sempre estender-me tua mão
Porque meu amor é estreia e reveleção
Fruta mordida em maturação
Oferenda em altar pagão
Porque meu amor é tua nau, tua embarcação.

Ama-me agora, urgente, imensidão
Que a vida é breve e eu não te espero não
Eu te amo concreto e intuição
Porque todo o resto é ilusão, acredites tu ou não
Meu amor é tentação e libertação.

E eu sei... nada em mim é vão!


Van Luchiari ©
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É TEMPO ©

*Eu - metamorfose de mim.



É tempo!
É tempo de mudar as coisas que me fazem mal. Esvaziar as gavetas, libertar os espaços para o novo chegar. Diminuir os móveis da casa, aumentar os espaços da alma. Respirar.
É tempo de jogar fora as coisas estragadas que estão em mim. Precisar menos das minúsculas coisas que as mãos podem pegar. Doar pra alguém o que não é mais verdadeiro pra mim. Precisar mais das coisas que o corpo não toca. E abraçá-las.
É tempo de renúncia, de deixar pra trás as coisas que não me servem mais.
É tempo de rasgar os rascunhos errados que eu criei. De apagar as rasuras que rabisquei em papel amarelado de tanta vida.
É tempo de mudar! Mudar de rumo, de rota, de direção. Mudar de mares, mudar de ares. Levantar voo com asas novas. Atravessar pontes diferentes. Trocar o velho sapato gasto por uma caminhada nova e macia.
É tempo de decidir o que irá na bagagem, porque a nova viagem é longa. Encontrar e abrir o coração para o novo. Apaixonar-me por tudo outra vez.
É tempo de encarar alguma leveza. É tempo de deixar as mãos vazias e livres pra tocarem em tudo pelo caminho. Pintar outras paisagens, com cores outras que não as conhecidas, desbotadas.
É tempo de refrescar as águas dos meus banhos. Molhar o amor. Deixar que ele se lave em água pura, em nascente intocada, completamente nu.
É tempo de renovar, de mexer nos meus mecanismos.
É tempo de arrombar as portas pesadas que me impedem de entrar no meu próximo ser.
É tempo de janelas escancaradas e ares frescos e perfumados.
É tempo de bússolas imaginárias. De pés mais suaves e resistentes, de passos largos. É tempo de saltar sobre as pedras no meu caminho com molas gigantes e assim, no salto, agarrar algumas nuvens lá em cima.
É tempo de abrir as algemas que me prendem a mim. E é tempo de não achar-me descartável e vã. Sim. É tempo de não ser tão invisível, tão pouca, tão rasa, tão nada!
É tempo de encontrar algum tempo pra testar um sorriso e arriscar ser feliz, mesmo não tendo isso, aquilo... mesmo não sendo exatamente aquela que um dia eu quis.
É tempo de sonhar! É tempo de aceitar! E de não parar de lutar!
É tempo de agradecer às derrotas diárias. Fazer amizade com elas, pra que assim elas se amenizem. Fazer as pazes com os meus erros, porque todos foram impulsos de acertar.
É tempo de curar as feridas.
É tempo de entrar na minha caverna e hibernar por horas e dias. Metamorfosear minhas crisálidas.
É tempo de aprender a respeitar as coisas certas. É tempo de melhorar a visão. Marcar uma nova consulta ao oculista, pra quem sabe assim, ver de verdade o que é realmente importante. Renascer!
É tempo de admirar minha imagem no espelho. Deixar as rugas e o desassossego de lado um pouco. Exigir menos. Precisar menos das desimportâncias. Encontrar o meu êxtase na simplicidade. Fantasiar-me melhor. Despir-me melhor. Acreditar mais no que é bom. Ter mais fé que o novo que virá, virá melhor.
E rir. Rir muito. Rir incansavelmente.
Acreditar! Acreditar mais. Acreditar incansavelmente.
Acreditar que a vida trará recompensas.
É tempo de baldear e filtrar. É tempo de fechar os olhos para o meu antigo ser e num outro eu , acordar. É tempo de parar de chorar!
É tempo de nunca mais perder tempo com volúvel e passageiro. Porque é tempo de coisas eternas.
É tempo de destravar a memória! É tempo!
É tempo de encantar o tempo! Ter o tempo em minhas mãos. E o tenho.
É tempo de abrir as minhas entradas, de achar as minhas saídas... Aquelas que vão dar no infinito! Aquelas que são pulsação e vida! Aquelas que vibram! Aquelas que mudam, que carregam e guardam o meu destino.
É tempo de descobrir mais Eu em mim.

É tempo! É tempo!

Van Luchiari ©
*Texto registrado na Biblioteca Nacional.
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