*Estamos em crise. Numa crise tão profunda quanto um poço cravado no meio do deserto, em busca de água, um fiapo qualquer de água que ilumine um canto qualquer de esperança.
Estamos em crise e cada olhar lembra uma tempestade. Cada gesto, uma tormenta, uma doença. Um mar em intenso redemoinho a sugar os redores dessa vida tão seca. Descobri hoje que também pode ser seco bem no meio do temporal. Na verdade não tem coisa mais seca do que um temporal quando um amor acaba e ninguém ainda percebeu. Quando algo chega ao fim, tão sutilmente que não notamos. A pele não sangra, os olhos nem marejam. Seco. Tudo é seco. Longe. Tudo é longe. Do fundo daquele poço, sairão apenas esses ares sufocantes sem nenhum calibre de futuro, nenhum gole de redenção.
Estamos em crise. Secos. E quanto mais nos debatemos, mais nos distanciamos, mais nos despedaçamos. Nada encontra o caminho. O pó dos dias cegou a intuição, sugou o perdão, drenou cada réstia de sol que havia entre os nossos dedos. Somos cinzas. E nem nos demos conta de quantas fúrias de ventos nos extinguiram.
O poço é a nossa casa, o nosso espelho, a nossa sombra, a nossa cama. É onde nos matamos diariamente, com minúsculas friezas e incompatibilidades e escuridões e infernos. A coisa mais triste do mundo é quando um amor morre. De descuido ou asfixia. O mundo nunca foi mesmo um lugar justo.
Estamos em crise. Estamos no poço. Quem é que vai jogar a corda? Quem é que a tem?
Ou criamos asas e garras para escalarmos sozinhos essa distância e damos uma trégua para o amor.
Ou então adeus.
#vanluchiari
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TRÉGUA
RESPOSTA AO AMIGO DISTANTE - DAS SAUDADES PATERNAS
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(Arte: Kymia Nawabi)
DE MIM
*Desse muito de mim que ficou para trás eu aprendi o vazio, a falta, a saudade.
Aprendi os ruídos que fazem os espaços ocos, as memórias,
os desejos empoeirados, esquecidos nas gavetas profundas da pele.
Desse muito de mim que já não sou, extraí a melancolia,
a umidade vazia dos dedos, a latência dos lábios,
a sépia do sentir, o silêncio dos arrepios.
Esqueci-me um quanto.
Tantas e tantas vezes nem fui-me antes de findar.
E findei-me, pendente, cadente, longe, bem longe de qualquer antes.
A milhas e milhas e milhas e milhas do agora.
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Diga NÃO ao plágio. Cite SEMPRE a autoria.
MORTAL
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BREATHING (Message in a bottle) ©
Untitled#Its - Sigur Rós
Em algum lugar dentro do espaço descomunal que existe de uma ponta a outra da minha alma. Perdi o rumo. Desmemoriei os caminhos.
É tão longa a estrada. Tão cheia de truques, ilusões, irrealidades, espelhos distorcidos. Debato-me nesse imenso vazio que me sobra e inunda quando eu fecho os olhos.
Não há janelas dentro de mim que tragam pra dentro a luz que eu sei que existe lá fora.
Eu sei. Está fora do meu alcance por ora. Meu caminho é inverso. Disperso entre o que eu fui e o que eu me tornei. Consumi-me lentamente num inevitável e pesado desaparecer.
Eu me perdi.
Estico os desejos e os pensamentos como escapatórias mágicas. Nenhum lugar é seguro dentro de mim. Eu não posso simplesmente sair. No entanto pulso insistentemente o que há de vida lá fora. Aprisionada nesse corpo que não encontra saídas, que não escorre pelos vidros quebrados dos quadros nas paredes. Que transforma os próprios dedos em inutilidades imprestáveis. Quebra os espaços restantes entre os mistérios e as respostas.
Eu me perdi.
Nada mais conheço do que um dia eu soube ser eu. Nada mais sei. Desaprendi-me. Vejo uma máscara de feições confusas tentando formar um rosto. Um pé, um fogo, um estalo, um sorriso, um engano, uma pegada, uma foto, uma sensação, uma canção... Tudo passa pelas minhas veias. Menos o fio que me libertará dessa catatonia. Eu vago por este lugar que eu chamo de mim.
E as correntes que eu mesma criei gemem o grito que se forma: Let me out! Let me out!
Eu ali. Uma pausa nas coisas. Expectadora de mim. Perdida. Refém das minhas próprias armadilhas, das minhas próprias teias. Dos meus medos. Alma paralítica, desfalecida e nua. Suplicando suas metamorfoses, seus voos.
Eu me perdi.
E o silêncio delatando meu pedido de socorro. Vagando no mar alto da minha alma em fúria, eis a garrafa. Eis o bilhete: Let me out! Let me out!
Tão vasta é a imensidão que vai de uma ponta a outra da minha alma que talvez eu nunca mais me encontre.
Ou talvez alguém encontre a mim com um amor assim inverso: Let me in! Let me in!

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